Ciência Cidadã para monitoramento e controle da malária em Ruanda

Atualizado: 15 de abr.




Casos de malária têm ressurgido em Ruanda nos últimos cinco anos, espalhando-se por todas as regiões do país. Para controlar o aumento de casos, o país tem desenvolvido diversos programas de monitoramento, e outras ações para entender a distribuição dos mosquitos vetores. Essas ações, no entanto, têm falhado em promover e manter o controle do número de casos, especialmente nas regiões mais remotas do país. Neste texto, revisamos um artigo que mostra uma iniciativa baseada na Ciência Cidadã, e utilizada pelo Programa Nacional de Controle da Malária em Ruanda, criada para apoiar a coleta de dados sobre os vetores e a doença, a fim de apoiar o monitoramento e controle da doença no país.

Ruanda é um dos países da África Sub-Sahariana com maior incidência de malária. Acredita-se que toda a população esteja em risco de contrair a doença, incluindo aproximadamente 1,8 milhões de crianças menores de cinco anos e 443 mil mulheres. Em 2013 e 2014 foram registrados 1,1 milhões de casos da doença no país, e apenas em 2016 o número de casos chegou a 4,7 milhões. Vários fatores contribuíram para o avanço da doença no país, por exemplo, o desenvolvimento da agricultura local que levou a mudanças importantes no ecossistema, juntamente com mudanças climáticas que têm resultado em chuvas intensas frequentes e mais enchentes, ambos aumentando o número de possíveis criadouros de mosquitos. Assim, e para controlar esse avanço é necessário entender como esses fatores afetam as interações entre os parasitas causadores da malária, os mosquitos do gênero Anopheles, vetores da doença, e o hospedeiro humano. A Figura 1 mostra de modo mais abrangente como fatores ambientais, biológicos e institucionais se interrelacionam, determinando o ressurgimento da malária em Ruanda.


Figura 1. Modelo conceitual que explica os fatores interrelacionados que determinam o ressurgimento da malária no contexto de Ruanda (modificado de Murindahabi et al., 2018)


No artigo, os autores definem Ciência Cidadã como o envolvimento de voluntários na observação, classificação, coleta e análise de dados. O estudo de caso reportado no artigo busca aplicar a proposta da Ciência Cidadã para monitoramento de mosquitos online, na região de Ruhuha, que têm alta incidência da doença, especialmente nos últimos anos.

O monitoramento da malária utilizando a plataforma de Ciência Cidadã em Ruhuha será iniciado com a distribuição de formulários impressos entre os membros da comunidade. Nesses formulários, que depois serão digitalizados e transportados a uma plataforma digital, serão coletados dos participantes dados sobre os mosquitos e doença. Acredita-se que esse tipo de monitoramento, no qual a comunidade está diretamente envolvida, pode apoiar de modo eficiente o controle da malária em regiões remotas do país.

Na fase inicial do projeto, os cidadãos de Ruhuha coletam dados sobre os incômodos ocasionados pelos mosquitos em suas residências e áreas adjacentes e reportam nos formulários distribuídos, que serão digitalizados para alimentar uma plataforma online. Outros dados sobre o vetor, como hábitat dos mosquitos, e características morfológicas, serão reportados, e posteriormente digitalizados.

Finalizada essa fase inicial, um aplicativo para celular capaz de coletar informações georreferenciadas será utilizado para coletar dados sobre os mosquitos, relacionados às informações inicialmente reportadas nos formulários impressos. As informações obtidas dos cidadãos via aplicativo, somadas às informações sobre a incidência da doença coletadas em centros de saúde poderão elucidar padrões de transmissão da doença e questões sobre a ecologia dos vetores da malária na região, apoiando os programas de controle da doença que já existem.

Segundo os autores, o sucesso da proposta envolve, no entanto, o comprometimento não somente dos cidadãos envolvidos, mas também da equipe responsável e das instituições envolvidas. Para manter o envolvimento dos cidadãos em iniciativas de ciência cidadã, é necessária tecnologia apropriada, meios de acesso à tecnologia, apoio institucional para divulgação da iniciativa, monitoramento, e devolução dos resultados. Em regiões remotas como Ruhuha, em Ruanda, acesso intermitente à internet, baixa cobertura de redes, falta de energia, e de telefones celulares, necessários para possibilitar a implementação de iniciativas de saúde pública baseadas como essa proposta, podem comprometer a coleta e validez dos dados, e sua utilização para controle da malária.


 

Por Ana Alice Eleuterio, Grecia Antonella e Micael Baruch


Referência

MURINDAHABI, M. M. et al. A citizen science approach for malaria mosquito surveillance and control in Rwanda, NJAS - Wageningen Journal of Life Sciences, Volumes 86–87, 2018, Pages 101-110, ISSN 1573-5214, Disponível em: <https://doi.org/10.1016/j.njas.2018.07.005>. Acesso em: 09/12/2021




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