A Expansão Geográfica de Mosquitos Aedes em resposta às mudanças climáticas
- 28 de nov. de 2025
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Atualizado: 30 de nov. de 2025
As mudanças climáticas têm sido um dos maiores desafios enfrentados pela sociedade moderna. Além dos impactos ambientais e econômicos, uma preocupação crescente é a forma como essas mudanças afetam a saúde pública. Embora já saibamos que as mudanças climáticas impactam diversos aspectos do meio ambiente, seus efeitos sobre a distribuição de mosquitos vetores de doenças são menos divulgados.
Fêmeas de Aedes aegypti e Aedes albopictus, presentes em várias regiões do mundo, podem transmitir doenças como dengue, zika e chikungunya. Nas Américas, as áreas onde esses mosquitos ocorrem são especialmente sensíveis às variações de temperatura, umidade e disponibilidade de criadouros, fatores determinantes para sua sobrevivência, reprodução e capacidade de dispersão. Além disso, a forma como utilizamos a terra, como a urbanização desordenada e a agricultura, pode alterar e ampliar os habitats desses mosquitos.

À medida que as emissões de gases de efeito estufa aumentam e aquecem o planeta, projeta-se que estas mudanças climáticas possam expandir as áreas geográficas habitadas por espécies de mosquitos, o que influenciará diretamente a transmissão de doenças, como as arboviroses. Nesse contexto, novos estudos que combinam mapas sobre a distribuição atual de mosquitos com variáveis climáticas e de uso do solo oferecem novas maneiras de estimar onde esses insetos podem viver no futuro. Essas abordagens, além de contribuírem com a nossa compreensão sobre os lugares onde os mosquitos podem se multiplicar, destacam a importância de analisar todos esses fatores de forma conjunta.
Um estudo realizado por Morgan E. Gorris e uma equipe de pesquisadores do Laboratório Nacional de Los Alamos (Los Alamos, NM, USA) revela que as mudanças climáticas podem afetar a distribuição de mosquitos dos gêneros Aedes em toda a América do Norte e do Sul. O principal objetivo da pesquisa foi projetar a distribuição geográfica desses mosquitos em resposta a cenários climáticos moderados e de forte aquecimento. No primeiro cenário, considera-se um mundo com desenvolvimento social e aquecimento global moderados, seguindo um caminho de tendências sociais, econômicas e tecnológicas que correspondem aos padrões históricos. O segundo cenário assume um desenvolvimento que depende e explora os combustíveis fósseis, resultando em um aquecimento climático mais intenso.
Os autores analisaram diversas espécies de mosquitos, das quais destacam-se Aedes aegypti e Aedes albopictus. Para realizar o estudo, foram coletados dados sobre a presença dessas espécies entre 2000 e 2019 (rotulados como 2020 no mapa) a partir do VectorBase, uma base de dados que fornece informações sobre invertebrados que transmitem doenças aos humanos, para analisar possíveis distribuições dessas espécies em resposta às mudanças climáticas projetadas para os anos de 2050 e 2090.
Para estimar e prever a distribuição futura das espécies, os pesquisadores utilizaram informações de áreas onde elas já ocorrem, analisando características do ambiente, como temperatura, umidade e tipo de solo. O método utilizado para a análise dessas informações foi o modelo de distribuição de espécies Maxent. O Maxent funciona comparando as condições ambientais dos locais onde os mosquitos são encontrados com dados de outras áreas que ainda não possuem dados de ocorrência. Essas comparações ajudam a identificar quais condições podem ser favoráveis para a sobrevivência dos mosquitos e projetar a ocorrência destas condições em diferentes cenários futuros. Como resultado, o Maxent gerou mapas de distribuição potencial, indicando onde as condições são mais adequadas para a espécie, facilitando a identificação de possíveis áreas de risco.
Os resultados do estudo mostraram que, em 2020, nas Américas do Norte e do Sul, os mosquitos Aedes aegypti apresentaram a maior adequação de área de habitat para sua sobrevivência, em comparação com as demais espécies analisadas, indicando que as condições ambientais eram muito favoráveis a essa espécie. Por outro lado, as análises mostram que os Aedes albopictus tiveram uma menor área de habitat adequada, ou seja, tiveram menos opções de habitat propícias para sua sobrevivência. Entretanto, as projeções futuras do estudo indicam que nenhuma das espécies de mosquitos analisadas será erradicada. Entre 2020 e 2090, foram identificadas regiões com condições climáticas que poderão ampliar a distribuição dos mosquitos, principalmente nas regiões boreais do Ártico, ao redor da Floresta Amazônica e em áreas tropicais. Embora a simples presença dos mosquitos não indique, por si só, a circulação de agentes patogênicos, ela funciona como um parâmetro essencial para avaliar o risco de transmissão de doenças.
O seguinte mapa apresenta as projeções atuais e futuras para a distribuição dos mosquitos Aedes. Em 2020, foram identificadas as áreas onde os mosquitos são encontrados, com base na média das informações disponíveis. A projeção para 2050 apresenta a previsão de distribuição das espécies, sob um cenário que considera um futuro de altas emissões de gases de efeito estufa.

Os resultados indicaram que as espécies de mosquitos Aedes analisadas responderão de forma resiliente às mudanças climáticas até 2090, apresentando um aumento em suas áreas geográficas em resposta às mudanças climáticas. Essa resiliência significa que essas espécies são capazes de se adaptar e prosperar diante das condições provocadas pelo aquecimento global, permitindo que elas se expandam para novas áreas, consolidando sua posição como vetores de doenças.
Além disso, é reforçada a interdependência entre processos ecológicos e a saúde pública. Compreender onde essas espécies vivem é essencial para prever sua expansão conforme as condições ambientais continuam mudando. Assim, medidas eficazes de controle dos vetores e ações de educação em saúde tendem a se tornar cada vez mais importantes, conforme transitamos para uma nova realidade climática no planeta.
Portanto, investir em programas de vigilância é fundamental para monitorar as mudanças nas populações de mosquitos e aumentar a conscientização sobre os riscos associados a doenças transmitidas por esses vetores. Essa abordagem, além de permitir o rastreamento das variações geográficas e comportamentais dos mosquitos, contribui na prevenção de surtos associados às doenças como dengue, zika e chikungunya. Além disso, ações eficazes contra as mudanças climáticas impactam diretamente a dinâmica das populações de mosquitos. Ao combater alterações climáticas e integrar medidas de vigilância e conscientização, podemos mitigar os riscos à saúde pública e construir comunidades mais resilientes. A mobilização coletiva em torno dessas questões é essencial para proteger a saúde da população e garantir um futuro mais seguro frente a doenças transmitidas por mosquitos.
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Por Jaciely Vieira Santana, Ana Clara Filimbert e James Arturo
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AMARO, George; FIDELIS, Elisangela Gomes; SILVA, Ricardo Siqueira da; MARCHIORO, Cesar Augusto. Efeito da extensão da área de estudo sobre a distribuição potencial de espécies: um estudo com modelos Maxent para Raoiella indica Hirst (Acari: Tenuipalpidae) no Brasil. Comunicado Técnico, n. 97. Boa Vista, RR, dez. 2022. Disponível em: https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/bitstream/doc/1152462/1/COT-97-Efeito-da-Extensao.pdf.
BERNARDES, Júlio. Temperatura global aumenta 1,6°C e segue subindo: "É como tentar parar um caminhão em alta velocidade". Jornal da USP, 10 jan. 2025. Atualizado em 13 jan. 2025. Disponível em: https://jornal.usp.br/ciencias/temperatura-global-aumenta-16c-e-segue-subindo-e-como-tentar-parar-um-caminhao-em-alta-velocidade/.
M.E. Gorris, A.W. Bartlow, T. Pitts et al. Projections of Aedes and Culex mosquitoes across North and South America in response to climate change. The Journal of Climate Change and Health, v. 17, p. 100317, mai.-jun. 2024. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.joclim.2024.100317.
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