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Arboviroses Emergentes na América Latina: Febre Oropouche e Febre do Mayaro

Atualizado: 1 de fev.

No decorrer dos últimos anos, tem sido observada uma rápida expansão da transmissão de diversas arboviroses, com surtos de infecção ocorrendo principalmente nos países subdesenvolvidos de regiões tropicais, mas avançando também para outras regiões devido às condições cada vez mais propícias à ocorrência dos vetores dessas doenças. Os fatores responsáveis pela rápida expansão das arboviroses no ocidente ainda estão sob investigação, mas os principais deles estão fortemente ligados à ação humana, como o desmatamento, falta de saneamento básico, migração e urbanização, sem contar as mudanças climáticas. Nós já falamos um pouco a respeito disso em outras publicações aqui no nosso portal, você pode conferir clicando aqui. Entre essas arboviroses que vêm tomando força atualmente, merecem atenção a febre do Mayaro e a febre Oropouche, que até pouco tempo eram restritas à região amazônica, mas têm sido recentemente detectadas em outras regiões do Brasil, especialmente no centro-oeste. Se você ainda não conhece essas doenças, confira nossos posts sobre elas clicando sobre o nome ou imagem de cada uma.



Febre do Mayaro


A febre do Mayaro, assim como a chikungunya, é causada por um vírus de fita simples de RNA envelopado pertencente ao gênero Alphavirus, da família Togaviridae. Esse vírus é transmitido principalmente por mosquitos do gênero Haemagogus entre primatas não humanos que habitam florestas tropicais, mas experimentos demonstram que o mosquito urbano Aedes aegypti também é capaz de transportá-lo. Por isso, apesar de poucas evidências que sustentem um ciclo urbano, existe uma preocupação de que o vírus possa utilizar o Aedes como vetor, infectando também os seres humanos na cidade, como já é o caso do vírus da febre Oropouche, que apresenta um ciclo silvestre e um ciclo urbano[1].


Em 2016, foi detectada em um menino de 8 anos uma coinfecção pelos vírus da dengue e da febre do Mayaro. O paciente se encontrava em uma área semi rural no Haiti, a cerca de 32 km da capital. O contexto desse caso sugere que talvez o mosquito Aedes aegypti possa ter sido o agente responsável pela transmissão de ambos os vírus ao mesmo tempo. Além disso, o fato de o Haiti não abrigar espécies nativas de primatas sugere a ocorrência de outro animal como reservatório para o vírus da febre do Mayaro, como talvez o próprio ser humano. O vírus da febre do Mayaro já foi também detectado uma vez em aves, apesar de a sua transmissão nesses animais ainda não ter sido muito bem estudada. Contudo, esse pode ser mais um indicativo da adaptação do vírus para infectar diferentes grupos [4].

Pesquisadores da USP sugerem que tanto o vírus da febre do Mayaro quanto o da Chikungunya podem sofrer mutações e se adaptar a novos ciclos zoonóticos de transmissão, podendo assim representar riscos mais altos de gerar epidemias. Essas hipóteses requerem mais investigações, mas uma das dificuldades está nos diagnósticos das doenças.


Febre Oropouche


A febre Oropouche é transmitida por um vírus pertencente a uma família diferente, chamada Bunyaviridae. No ciclo urbano, seu principal vetor é o Culicoides paraensis, pertencente a uma família de mosquitos conhecidos popularmente em alguns lugares como "maruins" ou "mosquitos-do-mangue", mas também pode ser transmitido por outros agentes, como os mosquitos Culex quinquefasciatus, Ochlerotatus serratus e inclusive pelo Aedes aegypti. Tanto os mosquitos do gênero Culicoides quanto o Culex quinquefasciatus se alimentam de sangue de outros animais além dos humanos, sendo os Culicoides ainda vetores de arboviroses em equinos e bovinos. No ciclo silvestre, o vírus da febre Oropouche circula entre bichos-preguiça e diversas espécies de macacos [10].

Alguns pesquisadores apontam a febre Oropouche como uma das arboviroses mais frequentes no Brasil, atrás apenas da Dengue, sendo uma doença emergente negligenciada. Sua introdução no Brasil se deu nos anos 60, na região norte do país, e desde então há ocorrências de surtos epidêmicos periódicos em certas regiões endêmicas da doença [3].


Epidemiologia


Devido aos sintomas dessas duas doenças serem semelhantes aos de outras arboviroses mais frequentes e aos diagnósticos serem principalmente clínicos, é provável que elas estejam sendo subnotificadas e que, portanto, o número de casos seja maior do que se tem registro atualmente [2,3,4,9]. Além disso, a similaridade do vírus da febre do Mayaro com o da chikungunya pode gerar reações cruzadas de imunidade no paciente, o que acaba confundindo até mesmo os testes sorológicos, pois anticorpos similares são produzidos pelo organismo em resposta aos dois vírus, já que suas estruturas são muito semelhantes [2,11]. Tendo isso em vista, as Secretarias de Saúde de alguns estados do norte do Brasil vêm alertando os municípios para a importância de aumentar o monitoramento e a precisão no diagnóstico das doenças.

Uma pesquisa realizada em Manaus pela Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD) revelou um surto silencioso da febre de Oropouche entre 2007 e 2008, com 128 casos confirmados pelos testes laboratoriais de sorologia, de um total de 631 pacientes testados, que nos exames clínicos haviam sido diagnosticados como dengue. Para a febre de Mayaro, foram confirmados outros 33 desse total [9]. A fim de aumentar a acurácia de diagnóstico dessas arboviroses, foi desenvolvido pelo Instituto Leônidas & Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazonas) um protocolo que possibilita o diagnóstico molecular da infecção pelos vírus da febre do Mayaro e/ou Oropouche, de maneira simultânea, com alta sensibilidade e especificidade, utilizando a técnica de PCR em Tempo Real [8]. O método já está em uso, mas atualmente a confirmação laboratorial por técnicas de biologia molecular está disponível apenas em instituições que realizam pesquisa no Brasil. Entre 1º de janeiro e 10 de abril deste ano (2023), o Laboratório Central de Saúde Pública de Roraima (Lacen-RR) analisou amostras de 320 pacientes, incorporando no seu escopo de exames o diagnóstico molecular, e dentre elas 26 foram positivas para Oropouche e uma para Mayaro [5].

Outros esforços voltados para essa área de pesquisa são importantes para o maior entendimento das arboviroses e, consequentemente, tornam-se peça essencial para o combate dessas doenças, como o projeto Zibra: mapeamento genético do Zika e outros arbovírus no Brasil, que percorre as regiões brasileiras para realizar o sequenciamento genético de vírus de arboviroses a partir de amostras de pacientes de diversos municípios. Em 2019, o levantamento foi feito na região Centro-Oeste do país em parceria com laboratórios de saúde pública do Ministério da Saúde, e os Laboratórios Centrais de Saúde Pública (LACEN) dos quatro estados. A Secretaria de Saúde de Goiás publicou uma notícia acerca dessa parceria onde colocam, como um dos objetivos do projeto, o sequenciamento de 400 amostras que foram positivas para pelo menos um dos oito vírus transmitidos (incluindo os da febre do Mayaro e Oropouche) pelos mosquitos mais relevantes para a região. Trabalhos como estes são fundamentais não só para responder questões como a origem dos vírus e seu período de entrada no território brasileiro, mas também para ajudar a prever novos surtos dessas doenças [7].


 

Por Bruna Rodrigues e Nathalia Brunetto


Referências


1. CAICEDO, Edgar-Yaset et al. The epidemiology of Mayaro virus in the Americas: A systematic review and key parameter estimates for outbreak modelling. PLoS neglected tropical diseases, v. 15, n. 6, p. e0009418, 2021.


2. ESPOSITO, Danillo Lucas Alves; FONSECA, Benedito Antonio Lopes da. Will Mayaro virus be responsible for the next outbreak of an arthropod-borne virus in Brazil?. Brazilian Journal of Infectious Diseases, v. 21, p. 540-544, 2017.


3. SCIANCALEPORE, Sofia et al. Presence and multi-species spatial distribution of oropouche virus in Brazil within the one health framework. Tropical Medicine and Infectious Disease, v. 7, n. 6, p. 111, 2022.


4. HOTEZ, Peter J.; MURRAY, Kristy O. Dengue, West Nile virus, chikungunya, Zika—and now Mayaro?. PLoS neglected tropical diseases, v. 11, n. 8, p. e0005462, 2017.



5. SÁ, Suyanne. PREVENÇÃO | SESAU alerta para importância da identificação de casos relacionados a Oropouche e Mayaro. Governo de Roraima, 2023. Disponível em: <https://www.portal.rr.gov.br/noticias/item/7665-prevencao-sesau-alerta-para-importancia-da-identificacao-de-casos-relacionados-a-oropouche-e-mayaro>


6. PERIN, Giliane. Seminário de Avaliação do Programa de Pesquisa para o SUS apresenta estudos desenvolvidos na área da saúde em Rondônia. Governo do Estado de Rondônia, 2021. Disponível em:<https://rondonia.ro.gov.br/seminario-de-avaliacao-do-programa-de-pesquisa-para-o-sus-apresenta-estudos-desenvolvidos-na-area-da-saude-em-rondonia/>


7. ALMEIDA, Patrícia; CORDEIRO, Felipe. LACEN contribui com pesquisa da Fiocruz sobre arbovírus. Secretaria de Saúde de Goiás, 2019.


8. SEIXAS, Marlúcia. Pesquisador da Fiocruz Amazonas investiga vírus oropouche. Agência Fiocruz de notícias, 2017. Disponível em:<https://agencia.fiocruz.br/pesquisador-da-fiocruz-amazonas-investiga-virus-oropouche>


9. MOURÃO, Maria Paula Gomes et al. Arboviral diseases in the Western Brazilian Amazon: a perspective and analysis from a tertiary health & research center in Manaus, State of Amazonas. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, v. 48, p. 20-26, 2015.


10. MOURÃO, Maria Paula G. et al. Oropouche fever outbreak, Manaus, Brazil, 2007–2008. Emerging infectious diseases, v. 15, n. 12, p. 2063, 2009.


11. PAVANI, Débora Fernanda Pedrozo. Imunidade cruzada entre os principais arbovírus de importância em saúde pública no Brasil-Revisão Sistemática. 2019.










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